Governo, oposição e sindicatos divergem sobre os protestos na França a seis meses da eleição
O Interior contou 550 mil manifestantes em 17/10; os organizadores, 800 mil. O que dizem governo, oposição e sindicatos, e o efeito no juro e no euro.
Os protestos de sábado, 17 de outubro, na França reuniram 550 mil manifestantes pela contagem do Ministério do Interior e 800 mil pela da CGT e de outras organizações, segundo o Le Figaro e o Guardian; O Globo, em reportagem do New York Times, publicou o número dos organizadores. Antes, segundo os dois jornais, foram semanas de bloqueios em escolas e uma greve de servidores em 29 de setembro, por salários segundo o Le Figaro e contra o plano de orçamento segundo o Guardian.
Em pronunciamento no dia 18, segundo o Eliseu, o presidente Emmanuel Macron disse que as reivindicações sobre o custo de vida e o preço dos combustíveis são “legítimas” e que grupos “de ultraesquerda”, acompanhados de “numerosos delinquentes”, saquearam lojas e atacaram prédios públicos. Parlamentares de oposição disseram, nas sessões de 13 e 14 de outubro, que as reivindicações são legítimas e que o governo deveria dar mais recursos ao ensino e baixar impostos sobre energia. Sophie Binet, secretária-geral da CGT, disse à AFP no dia 18 que Macron “não entendeu nada do que se passa no país”, segundo o Le Figaro.
O que diz o governo
Macron atribuiu o preço dos combustíveis ao conflito no golfo Pérsico. Disse que os préfets (representantes do Estado), com os prefeitos, poderão proibir “quando for preciso” certos ajuntamentos e pediu a partidos e organizações profissionais e sindicais que condenem a violência. Em 19 de outubro, as autoridades impuseram toques de recolher parciais em partes de Paris e de outras cidades, segundo o Guardian e a BBC.
No Senado, em 14 de outubro, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu citou, sobre as últimas semanas, 937 policiais e gendarmes feridos, 149 funcionários da educação e 248 alunos, e disse que “uma parte da classe política corre atrás do movimento para recuperá-lo com fins eleitorais”. Na Assembleia, em 13 de outubro, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, disse que as manifestações daquele dia foram feitas a pedido das organizações intersindicais e que, onde houve violência, “a ultraesquerda está por trás”.
O que diz a oposição
Em 14 de outubro, o deputado Arnaud Bonnet, do grupo Écologiste et Social, disse que 480 mil pessoas foram às ruas na véspera “para exigir mais recursos” para o ensino. Elsa Faucillon, do grupo Gauche Démocrate et Républicaine, disse que o governo responde “com o cassetete e as humilhações”. No Senado, Pierre Ouzoulias, do grupo Communiste Républicain Citoyen et Écologiste - Kanaky, disse que “nenhuma violência é aceitável, venha de onde vier” e que as reivindicações são legítimas. Pelo Rassemblement National, Matthias Renault disse, em 13 de outubro, que o governo se recusa a baixar impostos sobre gás, combustível e eletricidade; a porta-voz do governo, Maud Bregeon, respondeu que a situação no estreito de Ormuz pesa “muito duramente” na conta de gás e no preço na bomba.
O que dizem os sindicatos
As centrais não agiram juntas no dia 17: segundo o Le Figaro, só a CGT (com ressalvas) e a Solidaires chamaram a participar da mobilização. Em 5 de outubro, segundo o mesmo jornal, CFDT, CGT, FO, Unsa e FSU já tinham convocado greve e manifestações para 5 de novembro “pelos salários, os serviços públicos, o emprego e a indústria” e por “medidas de justiça fiscal para taxar os patrimônios, as heranças e os dividendos”.
Segundo o Le Figaro, a CFDT condenou em 18 de outubro “todas as violências”, disse que os responsáveis “confiscam as reivindicações sociais” e defendeu “reinterrogar serenamente a doutrina de manutenção da ordem”. Em 19 de outubro, a CGT condenou em nota “a estratégia do caos implantada pelo governo” e chamou os trabalhadores a “continuar a se mobilizar pacificamente” para fazer de 5 de novembro “uma grande jornada de convergência”. CFDT, FO, CFTC e CFE-CGC disseram à AFP ter sido convidadas ao gabinete do primeiro-ministro para 21 de outubro.
Orçamento e eleição
O projeto de orçamento de 2027 chegou à Assembleia em 1º de outubro. Pelos prazos constitucionais publicados pela Casa, o da primeira leitura termina em 17 de novembro e o de todo o Parlamento, em 17 de dezembro. Em 19 de outubro, a ministra Françoise Gatel disse aos deputados que “ninguém pode imaginar que uma eleição presidencial ocorra sem orçamento”.
Macron disse que o país está “a seis meses” da eleição presidencial. Segundo o Le Figaro e a BBC, o primeiro turno será em 18 de abril de 2027 e o segundo, em 2 de maio.
O juro francês
Os títulos de dez anos do governo francês renderam, em média, 4,44% ao ano em setembro de 2026, segundo o Banco Central Europeu (BCE), contra 3,51% em setembro de 2025. A diferença para o título alemão passou de cerca de 0,82 ponto percentual para cerca de 0,97 ponto no período. Em 19 de outubro, o Guardian relatou vendas de títulos franceses após os protestos; Jim Reid, do Deutsche Bank, disse, segundo o jornal, que o fim de semana “acrescenta outra camada de risco político para os mercados”.
Pelo Insee, a inflação francesa chegou a 3,1% em doze meses em setembro, com a energia em alta de 21,3%. O BCE elevou a taxa de depósito para 2,50% a partir de 16 de setembro.
O que chega à carteira
Câmbio. Pela taxa de referência do BCE, o euro valia R$ 5,6339 em 20 de outubro de 2026, contra R$ 5,9077 em 30 de setembro e R$ 6,3012 em 20 de outubro de 2025. Aplicações em euro sentem isso direto em reais, nos dois sentidos.
Títulos e fundos. Em fundos de renda fixa global ou títulos europeus, taxa mais alta significa preço menor dos papéis já emitidos, sobretudo nos prazos longos. Fundos com hedge cambial trocam o risco do euro pela diferença de juros entre a Selic de 13,75% (desde 17 de setembro, segundo o Banco Central) e a taxa de depósito de 2,50% do BCE.
Ações e energia. Em ETFs de ações europeias, juro longo mais alto encarece o crédito das empresas endividadas; a alta da energia chega ao Brasil pelo petróleo e pelos combustíveis.
Fontes
- Eliseu: pronunciamento do presidente da República aos franceses (18/10/2026)
- Le Figaro: boletim ao vivo das manifestações de 17/10/2026 (contagens do Ministério do Interior e dos organizadores)
- Le Figaro: boletim ao vivo de 18/10/2026 (nota da CFDT e declaração de Sophie Binet, da CGT)
- Le Figaro: sindicatos convidados a Matignon e nota da CGT (19/10/2026)
- Le Figaro: intersindical convoca greve e manifestações para 5 de novembro (05/10/2026)
- Le Figaro: boletim ao vivo da greve da função pública de 29/09/2026
- Le Figaro: as datas dos dois turnos da eleição presidencial de 2027 (14/10/2026)
- The Guardian: prédios incendiados e prisões nos protestos de 17/10/2026 (contagens do Interior e da CGT)
- The Guardian: França impõe toques de recolher parciais em várias cidades (19/10/2026)
- The Guardian: venda de títulos franceses depois dos protestos (19/10/2026)
- The Guardian: protestos de estudantes e greve dos sindicatos em 29/09/2026
- BBC: toques de recolher em partes de Paris e de outras cidades (19/10/2026)
- BBC: reportagem de 07/07/2026 com as datas dos dois turnos da eleição presidencial de 2027
- O Globo (reportagem do New York Times): quatro perguntas sobre os protestos na França (19/10/2026)
- Assembleia Nacional: compte rendu da primeira sessão de 13/10/2026 (perguntas ao governo)
- Assembleia Nacional: compte rendu da primeira sessão de 14/10/2026 (perguntas ao governo e debate do orçamento)
- Assembleia Nacional: compte rendu da primeira sessão de 19/10/2026 (debate sobre finanças locais)
- Senado: compte rendu analytique das perguntas de atualidade de 14/10/2026
- Senado: página do senador Pierre Ouzoulias
- Assembleia Nacional: dossiê legislativo do projeto de lei de finanças para 2027
- Assembleia Nacional: organização da discussão orçamentária e prazos constitucionais (29/09/2026)
- Conselho Constitucional: texto integral da Constituição de 4 de outubro de 1958
- BCE: taxa de juros de longo prazo (10 anos) da França, série IRS
- BCE: taxa de juros de longo prazo (10 anos) da Alemanha, série IRS
- BCE: taxas de longo prazo de França, Alemanha e Itália em setembro de 2025
- Insee: em setembro de 2026, os preços ao consumidor sobem 3,1% em um ano (15/10/2026)
- BCE: taxa da facilidade de depósito (série FM)
- BCE: taxa de referência do euro em reais (série EXR), de 20/10/2025 a 20/10/2026
- Banco Central: histórico de taxas de juros e meta Selic
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